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O QUE A AFRICA ESPERA DE BENTO XVI

Pubblicato da Ukamba su Marzo 10, 2009

bento-xviPe André Lukamba, Teólogo Angolano, reflectiu sobre o que os africanos almenjam da Visita do Santo, Padre em Africa, nomeadamente nos paises de Angola e Camarões. Aqui quisemos publicar na Integra seu discurso.

“Dizia um Dignitário do Vaticano nos últimos anos de João Paulo II que o Papa seguinte seria um que “entrou bem na velhice”. Quer dizer, apesar de ser velho, faria ainda muita coisa, mas sempre por pouco tempo, para não se ter de ficar outra vez tanto tempo como o foi com João Paulo II. O comentário geral é que não foi mau esse tempo, antes pelo contrário, mas talvez “tenha cansado um pouco”… E quando se lhe perguntava: “Santidade, sempre no trono?” Ele respondia: “Eu não estou no trono, e sim na cruz; e da cruz não se sai por vontade própria, são os outros que te devem tirar”…

Pois então nós temos Bento XVI que justamente este ano vem visitar a África, Camarões e Angola. Desde 2005 será a primeira vez a vir ao Continente. A pergunta é: “O que é que a África espera de Bento XVI?” Para o que me pedem, eu teria apenas cinco indicações:

a) – A África espera que pela sua mentalidade alemã (muito convencido) e intelectualidade (muito profundo), o Papa Bento XVI seja capaz de avançar uma surpresa: por ex., a união dos cristãos.
b) – Depois de tantos anos após o Concílio Vaticano II (44 anos), seja finalmente possível deixar que as Igrejas africanas possam exercer um seu direito fundamental: retomar o caminho do cristianismo a partir das origens.
c) – Com coragem e decisão, com fé e profundidade, deixar que se prepare e celebre um verdadeiro Concílio Africano.
d) – Favorecer a criação do Instituto Bíblico para a África em Jerusalém.
e) – Implicar com a Justiça e Paz na governação em África

I
Em 2005 estava eu com muita gente a ver a tomada de posse de Bento XVI, quando um irmão protestante exclamou: “o Papa já não é só dos católicos; ele é universal, é pai de todos! Não só: oxalá este novo Papa venha a conseguir a unificação de todos os cristãos: como foi um alemão a dividir [Martin Luther], assim seja um alemão a unir [Joseph Ratzinger]”. A África tem necessidade de se unir para afrontar em conjunto os desafios que se apresentam. Apesar de haver uma certa facilidade de eles se afastarem em questões morais na maneira de ver os hábitos e costumes, em relação, porém, à doutrina de fé em Cristo, Senhor e Filho de Deus, não devia haver nada mais. Seria o augúrio que a África esperaria de Bento XVI. A minha dificuldade é como os católicos se sentirão com coisas morais que ferem quantas vezes fortemente a consciência!

II
Se já antes de Cristo a África era conhecida pela sua profunda religiosidade e contada pelo salmista entre os verdadeiros adoradores de Deus (cfr Sl 87,4); o Egipto e a Etiópia e ainda a Líbia de Cirene são contados entre “os habitantes da terra” que estiveram presentes no dia de Pentecostes em Jerusalém (cfr Act 2, 9-11), e, portanto, a África esteve presente no nascimento da Igreja e início da sua missão; o elogio de Paulo VI na Africae Terrarum… “Ao dirigir à África a nossa saudação, não podemos deixar de recordar as suas antigas glórias cristãs”… e termina dizendo assim: “Estes exemplos e as figuras dos santos papas africanos Vítor I, Melquíades e Gelásio I, pertencem ao património comum da Igreja; e os escritos dos autores cristãos de África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento da história da salvação à luz da palavra de Deus”. Sobretudo, o mesmo Papa Paulo VI, “reconhecendo novamente o florescimento, o dinamismo e a maturidade das Jovens Igrejas Africanas, e confiando-as aos próprios filhos do Continente, exclamou: «(Agora), vós Africanos, sois (e deveis ser) missionários de vós mesmos». E em apenas 20 anos depois do Concílio Vaticano II a Igreja de África já se tinha criado estruturas continentais, regionais e nacionais que seriam capazes de reger um Concílio. Mais de 500 bispos repartidos em 34 Conferências Episcopais que compõem o SCEAM (Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar), órgão colegial do Continente. E para esta vitalidade contribuiu o chamado “Rito Zairense”, que o Vaticano chama “Rito Romano de expressão zairense”… ao lado de outras tantas iniciativas e experiências locais.
Por tudo isso, eu insisto na retomada do caminho original do Cristianismo em África. É que celebrando a Eucaristia como momento mais alto do encontro com o nosso Deus e Senhor, é hora de responder à pergunta pertinente de Cristo: “Vós quem dizeis que Eu sou?” Hoje a África precisa de responder: “Tu és dos nossos” (Chefe, Antepassado, Irmão mais Velho) e “Nós confessamos o Teu Mistério”. Por isso, “Estarás sempre connosco”.

III
As Igrejas Africanas têm uma veemente necessidade de um Concílio Africano para afrontar e desbloquear questões que infelizmente já provocaram enormes deformações, algumas até quase irreparáveis… O Concílio Africano é um grande acontecimento para ler, meditar, reflectir e provocar respostas novas e decisões definitivas por Cristo sem os hibridismos habituais nestas áreas por falta de uma compreensão adequada da palavra de Deus. Há quem pense que um Concílio por conta dos próprios Africanos traria para fora soluções “incómodas” como a abolição do celibato. Mas se tinha sido a África a salvaguardar esta questão disciplinar no passado, não seria anormal a ser novamente ela a revogá-la decorridos vários séculos de atormentada experiência… A Europa e sobretudo a América saíram-se ainda pior com a pedofilia e afins… Mas, entende-se, não é só por isso que a África exige um Concílio nos tempos modernos!

IV
Visto que a base de toda a evangelização é a palavra de Deus conhecida e amada na sua originalidade, porque é o próprio Cristo Senhor que se dá a conhecer, o SCEAM não deve abandonar, antes, deve insistir na ideia dos anos 70/80 de se criar em Jerusalém um Instituto Bíblico para a África. Ao que parece, ninguém quis até hoje subsidiar o Projecto pelos efeitos que dele viriam… É pena que aquela terra também está sempre em guerra, mas a África devia garantir um estudo original da Bíblia na terra de Jesus, para se cumprir finalmente a profecia “de Jerusalém a Kananga”… Com a tomada de posse de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos da América, o próprio Papa estaria mais facilmente motivado a favorecer o Projecto para o bem da Igreja e do próprio Continente. As tentativas históricas de ter sempre a África sob controlo, de domesticá-la como no passado, podem finalmente ser abandonadas.

V
O ex-Presidente Nelson Mandela, dizia a certo momento: “com o fim do apartheid na África do Sul, é tempo dos Africanos mostrarem de que são capazes!” Sim, esta afirmação pode chegar para fundamentar a exclamação a fazer: a África deve ser implicada na construção da Justiça e da Paz na sua governação!
Fora disso, dar-se-á a impressão de que os Africanos são mesmo incapazes! Por ex., não faltarão opositores “acanhados” ao mandato de Barack Obama, mas se ele se sair bem, assim o esperamos, no 1º e 2º mandato, a prova estará à vista: “Todos juntos [na justiça e no direito] é possível!” O importante é que passe a fase da vergonha dum jeito irritante de fazer as coisas. Diz, por ex., NELSON PESTANA, cientista político, que
“No nosso país (Angola), a pobreza [infelizmente] deve ser tida como uma vergonha nacional. Temos um país extremamente rico e uma população muito pobre, o que denota o facto de que o forte crescimento económico que o país tem registado, uma média de 20%, nos últimos cinco anos, tem uma fraca incidência social.
A pobreza nas cidades é de 57%, mas no meio rural atinge os 94%. Numa população nacional estimada em 18,5 milhões de habitantes, 12,5 milhões (68%) são pobres, porque vivem com 1,7 dólares por dia, numa situação de serviços básicos diminutos, de baixos indicadores sociais e de fraco funcionamento dos direitos humanos”.

Que Sua Santidade o Papa Bento XVI nos seja favorável na aplicação destes empenhos tão importantes para a Igreja e o Continente Africano!

Huambo, aos 22 de Janeiro de 2009
Padre Dr. André Lukamba”

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